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23 fevereiro 2026

Assim nascem os escritores...

11:23 // by Biblioteca Escolar António Nobre // No comments

 Assim nascem os escritores...



        Como uma das prioridades das Bibliotecas é a promoção da leitura e da escrita, sabendo que são competências determinantes para o sucesso dos nossos alunos a nível pessoal, académico, cívico e profissional, a Biblioteca António Nobre incentiva atividades de escrit,a sempre que possível, dando voz aos alunos. 

        Aqui se pode ler um texto escrito pelo Nícolas Gaspar, aluno do 12.º D, depois de trabalhar, em aula, os heterónimos de Fernando Pessoa.



        Debruço-me sobre o parapeito da memória e… avisto uma pequena criança. Inocente, sorridente e absurdamente otimista. Ele foi avisado de que iria mudar de país ao chegar da escola. Portugal, terra lusitana e gloriosa claramente superior ao Brasil. Eu e o Brasil tínhamos muito em comum. Ambos subdesenvolvidos e cheios de problemas internos apesar de nos mostrarmos incrivelmente bem para quem olha de fora.

         “Vamos dar-vos novas oportunidades”, “viveremos o sonho de qualquer família” disseram os meus pais com um sorriso enganador no rosto. Foi-me arrancado tudo. Laços cortados com amigos, familiares e até desconhecidos. Todo o otimismo e inocência tiveram que, deliberadamente, acabar. “Farás novos amigos”, “Você é extrovertido, não vai ter problemas”. Que belo equívoco… O processo foi sofrido, exaustivo e frio. Sem nenhuma lareira reconfortante, apenas um caminho a seguir ou um futuro a perder.

Quanto mais relembro, mais debruçado fico. Prestes a cair. Melancolia por todo o meu corpo e alma, tenho febre e escrevo. Valeu a pena? Não… Todas as almas são pequenas. 

        Fui atirado, de repente, para outra memória. Ainda mais antiga, mais nostálgica e mais emotiva. Andava a cavalo, livre como os ventos dos altos das montanhas. Sentia-me conectado com tudo à minha volta. Sentia tudo, porém não me importava com nada. Deveria ter seguido tal sensação em relação à mudança? Devo sentir tudo, sentir a perda e os medos mas ainda assim, dizer que “tanto faz” e não olhar para trás?

        A verdade é que eu não sinto orgulho de como lidei com os acontecimentos passados. Debruço-me sobre o parapeito da memória e, genuinamente, sinto nojo. Nojo da minha criança medrosa e insegura e prefiro cair no abismo infinito sem memórias acessíveis do que reviver tais momentos, tais vergonhas e tais escolhas. Quero esquecer quem eu era e quero sentir-me bem por ter vencido as adversidades da mudança e brindar pelos feitos que alcancei brilhantemente.

        Desculpem-me avós por ter me afastado, perdão amigos por não regar as flores das nossas amizades mesmo à distância. E por último, perdão desconhecidos por não vos ter encontrado e feito um impacto positivo em vossas vidas, dado que este é o meu único desejo. A memória consome-me e faz-me crescer. Preciso dessa ambiguidade para continuar a ser quem sou.

        Vou tentar debruçar-me sobre o parapeito da memória e não me arrepender. Aceitar a minha criança e quem eu fui e desculpar-me pelos erros que cometi, libertando, por fim, das minhas costas o peso dos pecados que eu carrego. 

Obrigado, memórias, até a próxima!


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