A beleza do outono…
A pequena música do outono
Há uma surpresa que nos espera quando partimos em busca da palavra «outono». Não a encontramos ancorada a qualquer ideia de declínio ou rendição, como provavelmente nos habituámos a pensar. Não é a renúncia resignada que nos revela a sua essência, nem a subtração nos ensina a sua gramática, nem a melancolia de uma qualquer despedida é a sua voz. Por surpreendente que possa parecer, o outono é o contrário disso. E há, certamente, uma importante conversão do olhar que nos vem pedida se quisermos seguir aquilo que Albert Camus escreveu, com delicadeza e desassombro, sobre o seu significado: «O outono é uma segunda primavera.» Acrescentando a justificação seguinte: «Nessa estação, cada folha se torna uma flor.».
De facto, o termo latino autumnus (ou, na outra forma possível, auctumunus) descreve isso: um tempo de crescimento, uma época propícia à abundância e à maturação, uma esplêndida cartografia (de cromatismos, de formas naturais, de odores…) capaz de nos inspirar na aventura sempre recomeçada de viver. Ele está colocado sob a dourada égide do verbo augere, que fala de mérito, de recursos e de recompensa. No outono, assistimos à exposição fulgurante que a natureza faz das suas metamorfoses, expressando nessa dança de cambiantes o seu indómito desejo de existir, e mostrando que este se realiza na aceitação do modo sempre diverso com que a vitalidade se declina. Esse espetáculo da transformação dialoga com as mudanças que nós próprios experimentamos e que nem sempre sabemos conduzir. Para sermos os mesmos, muitas vezes. O outono – esse laboratório da vida táctil – exorta-nos e consola-nos. Não é por acaso que o símbolo do outono é uma cornucópia transbordante de frutos de toda a espécie.
José Tolentino Mendonça








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